Prolongamento
Phil Masinga, o avançado sul-africano que fez história na Premier com o Leeds
2019-01-14 23:30:00
Phil Masinga, que morreu aos 49 anos, foi o primeiro sul-americano negro a jogar na Liga Inglesa

Passaram duas décadas, mas Phil Masinga nunca esqueceu as palavras de Howard Wilinson no seu primeiro dia ao serviço do Leeds United, no verão de 1994. "Disse-me para não ter medo de ninguém", recordou o sul-africano à BBC, então em 2015. "Disse que eu era tão bom como os restantes, para eu dar o meu melhor que poderia tornar-me num jogador de topo", acrescentou. 

Numa altura em que os episódios de racismo inundam o mundo do futebol, a história de Masinga ganha contornos especiais. A sua morte, vítima de cancro no passado sábado, trouxe-o de volta à 'atualidade'. 

Phil nasceu na aldeia de Khuma, na África do Sul, e destacou-se ao serviço dos Jomo Cosmos e dos Mamelodi Sundowsn, antes de rumar até a Inglaterra. Recusou o Sporting, então treinado por Bobby Robson, para embarcar numa aventura que se verificou histórica, na companhia de Lucas Radebe. 

"Não estávamos habituados ao tempo e foi um bocadinho difícil", contou Radebe à BBC. "Phil foi um fenónemo entre a equipa e os jogadores. Eu olhei para ele e pensei que me inspirava. Foi fantástica a forma como ele se adaptou", acrescentou. 

Depois de se estrear na seleção sul-africana em 1992, Masinga tornou-se no primeiro negro daquele país a jogar na Premier League, alguns meses depois de Nelson Mandela ter sido eleito presidente. Fez dois 'hat-tricks' durante a pré-temporada e demorou apenas três minutos para marcar ao Chelsea, em agosto de 1994, numa derrota por 3-2. A estreia de Radebe aconteceu algumas semanas depois, frente ao Sheffield Wednesday. 

A porta estava aberta, apesar da dupla não ter sido a primeira de sul-africanos a atuar pelo Leeds. (Gerry Francis e Albert Johannesson fizeram-no em 1961). 

A contratação do ganês Tony Yeboah marcou, contudo, o início do fim da aventura de Masinga em Elland Road. Embora Radebe se tenha tornado capitão do Leeds, sobre a orientação de George Graham, o seu amigo mudou-se para a Suíça em 1996, depois de 31 presenças pela turma de Yorkshire. 

Seguiram-se aventuras por Itália, no Salernitana e no Bari, onde marcou mais de 30 golos em quatro temporadas, antes do histórico golo que valeu a primeira presença da África do Sul na fase final de um Mundial, frente à República do Congo. 

Apesar do feito, Masinga viria a ser assobiado pelos adeptos no jogo internacional seguinte, depois de desperdiçar várias oportunidades em frente à baliza. Renunciou à seleção depois do Mundial de França. 

"Foi difícil, estava-me a matar", disse na altura. "Nem conseguia comprar mais jornais, não queria saber o que escreviam sobre mim". 

Ao ter problemas na licença de trabalho em 2001 e a contas com uma lesão no joelho, Masinga terminou a carreira e voltou à África do Sul, onde orientou o seu antigo clube, o Jomo Cosmos. Em cinco anos, depois de "alguns maus investimentos", voltou a viver com a mãe, tendo inclusive vendido a medalha de vencedor da Taça das Nações Africanas de 1996. 

"Algumas pessoas têm sorte por ter conhecimento financeiro através de estudos ou carreiras. Eu tive que aprender a minha através da 'universidade da vida'", explicou.

Embora tenha voltado aos estudos para perseguir um sonho em regressar ao futebol de topo como empresário ou diretor, foi-lhe diagnosticado um cancro. Morreu no passado sábado, para lamento da comunidade sul-africana. 

"Perdemos uma lenda do futebol, Phil 'Chippa' Masinga', escreveu Pienaar nas redes sociais. "Ele abriu caminho para todos os jogadores sul-africanos no Reino Unido", acrescentou o jogador que já passou, entre outros, por Everton, Tottenham e Sunderland.