Prolongamento
Rui Pinto dá origem a investigação a agentes de jogadores em Espanha
2020-02-26 15:35:00
Empresários suspeitos de integrar "organização criminosa" que operava através de clubes em vários países

A Guarda Civil espanhola anunciou a abertura de uma grande investigação a branqueamento de capital com base nas denúncias feitas pelo Football Leaks, o projeto do hacker Rui Pinto, adiantou o jornal Público.

Em causa na Operação Lanigan estão as "transferências fantasma" que permitiram a Fali Ramadani, o agente que 'colocou' Luka Jovic no Real Madrid por 60 milhões de euros, 'lavar' mais de dez milhões de euros.

Com essa verba, o empresário albanês e o sócio sérvio Nikola Damjanac, responsáveis pela Lian Sports (que agencia vários jogadores), terão comprado várias moradias de luxo em Maiorca.

De acordo com a Guarda Civil espanhola, as revelações feitas por Rui Pinto levaram as autoridades a procurar a origem do dinheiro.

"Conseguimos descobrir como estes agentes participavam numa organização criminosa capaz de controlar vários clubes de futebol em países com a Sérvia, Chipre ou Bélgica, realizando contratações fictícias, de que apenas se teve conhecimento através dos documentos desvendados pelos órgãos de comunicação social, conhecidos como Football Leaks", precisou a Guarda Civil espanhola.

A citada transferência de Luka Jovic, uma das maiores tranferências do passado verão, foi uma das que mais atenção despertou nas autoridades espanholas.

Com base nas informações divulgadas pelo Football Leaks, a Guarda Civil e a Autoridade Tributária espanholas chegaram até às "contratações fantasma" do Apollon Limassoll, o emblema cipriota que comprava jogadores para os vender na época seguinte, muitas vezes sem sequer realizarem uma partida pelo clube.

Luka Jovic foi comprado pelo Apollon Limassol ao Estrela Vermelha em janeiro de 2016, por dois milhões de euros, e um ano depois foi vendido ao Benfica por 6,6 milhões.

Em julho de 2017, o Benfica emprestou o avançado sérvio ao Eintracht Frankfurt, que em julho de 2019 ativou a opção de compra, no valor de sete milhões de euros, para o revender no dia seguinte ao Real Madrid por 60 milhões.

Para além das comissões com as transferências, os agentes conseguiam relevantes benefícios fiscais, uma vez que a tributação deste tipo de operações em países como Malta (onde a Lian Sports tinha a sede) e Chipre (onde está o Apollon Limassoll) é significativamente mais baixa do que na maioria dos países europeus.

No processo também era usada a técnica de dispersão dos lucros arrecadados pelas suas empresas por diferentes países, de forma a evitar o pagamento de impostos em Espanha.

"É essencial que as autoridades utilizem a informação sobre crimes graves, tais como fuga ao fisco e branqueamento de capitais, independentemente da sua origem", sustentou o advogado de Rui Pinto, Francisco Teixeira da Mota, em declarações ao jornal Público.

Esta investigação agora aberta pela Guarda Civil espanhola é o mais recente caso da colaboração de Rui Pinto com a justiça do país vizinho. Foi através do Football Leaks que Espanha investigou várias figuras mediáticas do futebol e recuperou milhões de euros, como nos casos de Cristiano Ronaldo (chegou a um acordo para pagar 16,7 milhões de euros ao fisco espanhol), Radamel Falcao (sete milhões), James Rodríguez (quatro milhões) e Fábio Coentrão (1,7 milhões de euros).

Ramadani e Damjanac foram hoje constituídos arguidos por suspeita de branqueamento de capitais, fraude fiscal e outros delitos relacionados com o alegado esquema ilícito de transferências de jogadores.

Em Portugal, Fali Ramadani representa dois jogadores, ambos do Benfica: o suíço Haris Seferovic e o sérvio Ljubomir Fejsa (emprestado aos espanhóis do Alavés).