Prolongamento
Carlitos, da fábrica ao R.Madrid e a justificação que falta dar a Pinto da Costa
2018-04-26 20:25:00
O antigo jogador abriu o coração ao Bancada e falou dos momentos que passou em Madrid e da chegada ao Benfica

Da fábrica de teares de Barcelos ao Real Madrid. Foi este o passo dado por Carlos Manuel da Silva Cunha, conhecido no mundo da bola por Carlitos, em 1997. Altura em que era caso raro um miúdo de 18 anos deixar o Gil Vicente para rumar ao colossal Real Madrid. Mas desengane-se quem pensa que foi tudo um mar de rosas. Bem pelo contrário, Carlitos, que já partiu com um pé atrás, viveu momentos difíceis em Madrid – ao ponto de perder o carro durante três dias – resolvidos com um braço de ferro que o deixou sem jogar durante meio ano. Esta é a história do miúdo humilde que teve tudo certo com o FC Porto, mas que acabou no Benfica: “Só me arrependo de não ter dado uma justificação ao Sr. Pinto da Costa.”

Há que fazer um ponto prévio. Ao contrário do que acontece nos dias de hoje, em 1997 era uma raridade os grandes clubes europeus virem “pescar” miúdos aos clubes portugueses, muito menos à equipa de juniores do Gil Vicente. É verdade que a intenção do clube espanhol era fazer “rodar” o jovem jogador na equipa B, mas ainda assim, a notícia caiu como uma bomba no futebol português. O falecido empresário, Manuel Barbosa, granjeava de grande influência entre os responsáveis do clube espanhol. Aliás, havia sido Manuel Barbosa o grande propulsor da ida de Zeferino e Tinaia, também para o Real, abrindo uma ferida no FC Porto.

“Na altura o meu empresário era o Manuel Barbosa, ele tinha umas boas relações com o Real Madrid e a época, no Gil Vicente, estava a correr-me muito bem. Ele achou por bem explorar essa oportunidade do Real Madrid. Eu não estava muito a favor, mas ele lá me convenceu”, revelou Carlitos, ao Bancada. E foi no meio de muita sinceridade que Carlitos nos explicou porque é que estava de pé atrás em relação à mudança para Madrid. Talvez estivesse a adivinhar os tempos traumáticos que se iam seguir.

A vida entre os treinos e a fábrica

“Não estava muito convencido porque tinha apenas 18 anos e estava muito ligado aos meus, e à minha terra, à minha gente. E aquilo era uma mudança super-radical . Ir de Barcelos até Madrid era um salto muito grande”, revelou humildemente o jovem que pouco mais de um ano antes de assinar com o Real Madrid dividia o tempo entre o campo de treinos do Gil Vicente e a fábrica de teares de Barcelos.

O "cromo" Carlitos nos primeiros tempos de Gil Vicente. Foto: Facebook/Carlitos

“Trabalho desde os 15 anos. Fiquei sem pai muito cedo e como eramos quatro irmãos eu tive de ir trabalhar. Na altura, não pensava muito na escola, só queria o futebol e então comecei a trabalhar e a treinar ao mesmo tempo. Trabalhava numa fábrica de teares.

Passei de trabalhar numa fábrica a treinar no Real Madrid. Foi uma mudança fora do normal. Ou seja, trabalhava na fábrica das 6h às 14h, depois vinha a casa almoçar e o treino, com os seniores era às 15h e depois já estava a preparar-me para treinar com os juniores.

Depois tive muito perto de ir para os juniores do Benfica, estive até num almoço com o falecido Peres Bandeira e estava quase tudo tratado para ir fazer a segunda época de juniores no Benfica quando o Gil Vicente me chamou e me deu o contrato de profissional e tiraram-me da fábrica.”

Aliás, foi em conversa com Wilson Estrela, antigo colega de Carlitos no Gil Vicente, que ficámos a saber da história da fábrica. “O Carlitos era um miúdo humilde, sempre pronto para uma brincadeira e ele na altura, ainda júnior, trabalhava na fábrica e depois, à tarde, vinha treinar connosco”, lembrou o antigo defesa central que passou pelo Belenenses e que lembrou os bons momentos passados com Carlitos nos tempos de Gil Vicente. “Nós brincávamos muito com ele porque ele um dia ouviu o Paulo Futre a dizer que o céu era o limite e, então, depois, qualquer coisa que acontecia nós dizíamos-lhe: ‘Calma Carlitos, o céu é o limite’, eramos um grupo unido”, recordou Wilson.

Antes do pesadelo em Madrid, a tatuagem de Tuck

A verdade é que nem o céu parecia ser o limite para Carlitos, um extremo rápido e muito forte no um-contra-um. Falámos com Tuck, outro antigo companheiro de Carlitos no Gil Vicente, que em jeito de brincadeira nos disse como se parava o Carlitos nos treinos: “Ele ainda deve ter umas tatuagens minhas nas pernas”, disse entre risos o antigo médio centro. “Eram coisas dos treinos. Ele era um miúdo muito rápido. Era bom quando lançado em profundidade, mas era também muito habilidoso com a bola nos pés. Para além de ser sempre um miúdo humilde e bom colega”, revelou o atual treinador.

Uma excelente primeira época ao serviço do Gil Vicente e exibições de encher o olho sempre que representava as seleções jovens fizerem com que as suas qualidades começassem a ser reconhecidas para lá de Barcelos, sobretudo em Madrid, onde o seu empresário se movimentava como poucos.

“Foi tudo mito rápido. As exibições nas seleções de sub-20 e sub-21 ajudaram-me. Sempre que era chamado fazia bons jogos. O Torneio de Toulon também me correu bem e onde fui o melhor marcador. Depois foram os contactos do empresário a funcionar também ajudou, sem dúvida.”

Foi com a máxima honestidade que Carlitos assumiu o falhanço dos seus tempos em Madrid. Aliás, a conversa com este antigo jogador, que passou por clubes com o Real Madrid, Benfica, SC Braga, Vitória de Guimarães e internacional pelas seleções jovens de Portugal foi pautada por uma brutal sinceridade por parte de Carlitos, que, como vai ler mais adiante, assumiu alguns arrependimentos durante a carreira.

“Foi uma mudança radical. No espaço de um ano fui dos juniores do Gil Vicente ao Real Madrid B. Confesso que na altura não estava minimamente preparado. E o acompanhamento que era prestado aos miúdos não tem paralelo com o que se faz hoje. Hoje há departamentos para os miúdos da formação, de acompanhamento às famílias.

Eu era um miúdo agarrado às raízes. De uma família super-humilde de Barcelos. Foi um grande choque a minha ida para Madrid, vi-me sem os meus irmãos e custou-me muito. A minha namorada na altura – agora minha esposa – foi comigo, mas foi difícil. A minha vida era treino e casa.”

Em Madrid, Carlitos cruzou-se com Carlos Secretário, o lateral-direito português, também agenciado por Manuel Barbosa, que se havia transferido do FC Porto para o Real um ano antes, foi o grande suporte do jovem de Barcelos que passava tempos complicados longe da família. O mau estar era tão grande que levou Carlitos a perder o carro nas imensas ruas de Madrid.

“Eu lá jogava no Castilla, na segunda divisão B, e às quartas-feiras treinava com a equipa A. Na altura tive grande apoio do Secretário. Ele levava-me aos treinos e andava comigo a passear. Tínhamos, os dois, o mesmo empresário, e eu ia jantar a casa dele. Foi uma ajuda tremenda.

Eu fui-me muito abaixo animicamente, não estava bem. Na altura o Real Madrid até me deu um carro para eu andar lá de um lado para o outro. Sei que um dia estacionei o carro numa rua qualquer e depois estive três dias à procura do carro. Até ao ponto de pensar que me tinham roubado o carro.

Eu estava tão afetado psicologicamente que andei três dias convencido que me tinham roubado o carro. Até que um dia ia para o treino e encontrei o carro quase à porta de casa. Já tinha tudo pensado para ir aos escritórios do clube dizer que me tinham roubado o carro. Pensei, eles vão ter de resolver esta situação. Mas pronto, lá encontrei o carro.”

As coisas estavam complicadas para o jovem português, que não se adaptava à cidade de Madrid e sentia a falta da simplicidade da sua terra e da sua gente, como carinhosamente gosta de se referir à família e aos amigos. Depois de seis meses na capital espanhola, Carlitos insistiu em regressar a Portugal. O negócio aconteceu, mas apenas por empréstimo. Braga era o destino do atacante, mas o pesadelo estava longe de ter um ponto final.

“No fim dessa época fiz força para vir para Portugal. Lá me emprestaram ao SC Braga e as coisas até me correram bem. Chegámos mesmo à final da Taça de Portugal. Mas depois chegou o fim da época e tive o mesmo problema.

O Real queria que eu regressasse a Madrid, mas eu estava traumatizado e disse a todo o custo que não queria ir. Este braço de ferro valeu-me seis meses sem jogar. Andámos às “cabeçadas” e só se resolveu seis meses depois com o empréstimo ao Estrelo da Amadora. O Jorge Jesus mostrou interesse que eu fosse para lá e resolveu-se isso com o Manuel Barbosa.”

Assina com o Benfica quando já tinha dado a palavra a Pinto da Costa

Mas os seis meses de braço de ferro com o Real Madrid fizeram com que Carlitos estivesse seis meses, em Portugal, sem treinar. Esse período reflectiu-se depois no tempo que vestiu a camisola do Estrela da Amadora, mas os tempos negros estavam a chegar a um fim: “Foi uma época complicada. Já não treinava há seis meses e, no Estrela, as coisas não me correram muito bem. Depois lá cheguei a acordo com o Real Madrid para que eles me emprestassem uma época inteira ao Gil Vicente.”

O acordo estabelecido entre o Real Madrid e o Gil Vicente permitiu que Carlitos se preparasse para a nova temporada de uma forma que não fazia há um par de anos. Sem braços de ferro para fazer, sem a pressão de ter de regressar a Espanha, onde havia vivido momentos traumáticos, ao jovem jogador foi permitido um recomeçar de novo, pelo menos, por uns instantes. O que aconteceu no fim da temporada 1999/2000 está ainda atravessado na memória de Carlitos, não pela decisão que tomou, mas por não ter dado uma justificação a Pinto da Costa, com quem tinha acertado a transferência para o FC Porto.

Mas deixemos que seja Carlitos a contar o episódio.

“Pronto, fiz pré-época, concentrei-me e estava junto aos meus, novamente, e fiz uma época fantástica. Conseguimos a melhor época de sempre do Gil Vicente e foi aí que surge mais um episódio daqueles.  

A seis jogos de terminar o campeonato tive contrato com o FC Porto. Recebi um telefonema de uma pessoa ligada ao FC Porto. Desloquei-me a casa do Pinto da Costa, ali na baixa do Porto, com o empresário Fernando Emílio e cheguei a acordo com o presidente.

Nunca mais me esqueço das palavras do Sr. Pinto da Costa. Assim que entrei, ele foi de uma simpatia tremenda, mas disse-me logo: ‘essa porta por onde entraste, se saíres sem chegarmos a acordo, não há mais entrada’. Ou seja, senti ali logo uma pressão. Eu, com 19 aninhos, a minha vontade era dizer logo que sim.

Carlitos apresentado como reforço do Benfica, ao lado do, então, presidente dos encarnados, João Vale e Azevedo 

Na altura era uma excelente proposta para mim. E o que o Sr. Pinto da Costa me disse foi para não me preocupar com o meu contrato com o Real Madrid – que ainda tinha mais dois anos de ligação – porque ele tinha boas relações com o Lorenzo Sanz e que ia tratar da minha desvinculação com o Real.

Ainda me lembro de que nessa época – 1999/2000 - jogámos com o FC Porto no último jogo do campeonato e eles precisavam de ganhar para sonharem com o título. O Sporting acabou por ganhar em Salgueiros e ser campeão. Mas ganhámos o jogo por 2-1 e eu marquei o segundo golo.

E no final do jogo cruzei-me com o presidente do FC Porto e falámos cuidadosamente para ninguém perceber sobre o acordo. Acontece que o Lorenzo Sanz perde as eleições no Real Madrid, surpreendentemente, em julho de 2000.

E uns dias depois da época acabar eu tenho um encontro com os representantes da Puma, em Lisboa. Eu, como não conhecia nada de Lisboa, combinei com eles no Estádio da Luz, junto à estátua do Eusébio.

Fui para Lisboa, mas parei em Fátima, fomos lá fazer uma visita. E já cheguei a Lisboa um pouco atrasado e enquanto espero pelo pessoal da Puma, junto ao Estádio da Luz – onde a minha família estava a tirar umas fotos -, recebo uma chamada do falecido Manuel Barbosa

‘Carlitos sai já do sítio onde estás’. Mas você sabe onde é que eu estou? ‘Estás no Estádio da Luz’. Pois estou. Vim aqui encontrar-me com o pessoal da Puma, mas qual é o problema? ‘Sai já daí e vem já para o meu escritório porque eu tenho urgência em falar contigo.’

Enquanto eu lá estava, perto do Estádio da Luz, apareceram logo jornalistas, e ninguém se apercebeu que eu estava ali pela simples razão que me fui encontrar com os representantes da Puma e que tinha a minha sogra e o meu sogro a tirarem fotografias ao estádio e à estátua porque nunca ali tinham estado. Eu nunca tinha falado com ninguém do Benfica. Tinha acordo com o FC Porto.

Depois disto lá me encontrei com o Manuel Barbosa, no escritório dele, quando ele me diz que o Benfica estvaá interessado em mim. Mas eu disse-lhe logo, ‘Sr. Manuel Barbosa, eu já cheguei a acordo com o FC Porto.’ Ao que ele me responde, sabendo do azar do Lorenzo Sanz, ‘O Real Madrid não te vai libertar’.

Eu fiquei logo receoso. Queres ver que me vai acontecer de novo como há dois anos: vão-me obrigar a ir para lá e vou ter de jogar na equipa B. Eu tinha as palavras do Sr. Pinto da Costa na minha cabeça em relação ao resolver o meu contrato com o Lorenzo Sanz, mas agora que ele tinha perdido as eleições aquilo mudou tudo.

Eu disse ao Sr. Manuel Barbosa que tinha contrato com o Real Madrid, ao que ele me responde: ‘Amanhã rescindimos e assinas com o Benfica’. Lá marcou duas passagens para Madrid e fomos. Eu estava curioso para ver o que é que ele conseguia fazer.

A verdade é que falou mais alto a grande autoridade que o Sr. Manuel Barbosa tinha junto do Real Madrid e conseguiu resolver a situação entre os espanhóis e o Benfica. Para lhe ser sincero, até fui receber menos do que aquilo que o FC Porto me tinha prometido.

E nunca mais falei com o Sr. Pinto da Costa. Mas digo sinceramente, não o fiz porque não sabia o que lhe dizer. Com 19 anos não tive coragem de ter uma conversa com ele. Confesso que não me comportei da maneira mais correta e acobardei-me, mas era um miúdo e até fiquei com medo de que ele me insultasse… tinha 19 aninhos, não sabia como lhe explicar a situação.

Eu não podia arriscar. Se fosse para o Benfica tinha a certeza que que era garantido, esperar que o FC Porto resolvesse a situação era algo incerto e eu não me queria arriscar a ter de jogar outra vez na equipa B do Real Madrid. Mas não estou nada arrependido. A única coisa que fazia diferente, se pudesse voltar atrás, era ter dado uma palavra às pessoas do FC Porto a justificar a minha decisão.”

Carlitos em ação com a camisola do Benfica. Foto: ANDRE KOSTERS/Lusa

O ídolo e a revelação das madeixas louras

Mais uma vez sem grandes rodeios Carlitos respondeu a duas questões que lhe colocámos. Quisemos saber o porquê das madeixas louras e perguntámos ao antigo jogador qual o clube que apoiava em garoto. Afinal de contas, todos nós temos os amores de infância, mesmo que depois, sendo Carlitos jogador profissional de futebol outros valores se levantem, e ficámos a saber que as respostas às duas perguntas têm uma ligação.

“Eu sempre sonhei em ser profissional pelo Gil Vicente, mas tenho de admitir que o clube que eu admirava quando miúdo era o Benfica”, começou por responder o jogador que passou pelas águias entre 2000 e 2004, mas já não foi a tempo de se cruzar com o seu grande ídolo de infância: João Vieira Pinto

“Eu chego ao Benfica pouco tempo depois de ele ter ido para o Sporting. Anos mais tarde tivemos a chance de sermos colega no SC Braga, mas eu não cheguei a acordo com o clube e acabou por não acontecer.”

E o cabelo Carlitos, explique lá a situação do cabelo

“Cortava o meu cabelo como o dele, eu com a tesoura, cortava o meu próprio cabelo para ficar como o dele e até pintava de louro para me parecer mais com ele. Nunca joguei com ele, mas encontrei-me algumas vezes com ele nas seleções. Às vezes os sub-21 faziam umas peladinhas com a equipa A e cruzávamo-nos. Ele chegou a perguntar-me se eu já tinha assinado com o Benfica e chegou a dar-me uma camisola.”

Para a história fica um rapaz de Barcelos que em meados dos anos 90 foi visto como uma das maiores promessas do futebol português, esse carimbo valeu-lhe um contrato com o Real Madrid. As coisas não correram da melhor forma, é certo, mas Carlitos deixou a sua marca no futebol luso. Foi peça fundamental na melhor época de sempre do Gil Vicente, foi desejado pelo FC Porto, mas vestiu de águia ao peito.