Portugal
Mudanças de estádio devem-se a questões de segurança... e de receita
2017-10-07 19:05:00
Clubes "pequenos" lucram com mudança para estádios maiores, assim como a Federação.

Desde a temporada 2015/16, o sorteio da Taça de Portugal deixou de ser puro e, na terceira eliminatória os clubes da Primeira Liga já sabem que terão de jogar como visitantes frente a equipas de escalões secundários. Um dos objetivos da medida é levar os principais clubes portugueses a terras que normalmente não têm oportunidade de os ver. No entanto, o Lusitano de Évora vai “receber” o FC Porto em Lisboa, no Estádio do Restelo, e o Olhanense “recebe” o Benfica no Estádio do Algarve.

Estas alterações só estão previstas em caso de “impossibilidade do terreno de jogo, falta de condições de segurança ou não cumprimento dos requisitos para realização de transmissão televisiva” e, mesmo nesses casos, o jogo deve ser realizado “no estádio de outro clube situado na área da sua Associação Distrital”, regra que não foi respeitada no caso do Lusitano de Évora – FC Porto.

Curioso é que estas mudanças sejam feitas com a aprovação da Federação Portuguesa de Futebol, ainda que subvertam o objetivo da regra criada pela própria. Tal fica a dever-se às exigências quanto às condições dos estádios em jogos de risco elevado e também ao facto de, tanto os clubes como a Federação, poderem fazer mais dinheiro utilizando estádios maiores.

Condições exigidas para jogos de risco elevado

Ainda que não se prevejam grandes problemas de segurança num Lusitano de Évora - FC Porto ou num Olhanense – Benfica, segundo o Regulamento de Prevenção da Violência da FPF estes são jogos de risco elevado. É que o ponto 4 do artigo 10.º menciona que um jogo é de risco elevado quando “o número de espetadores previstos perfaça 80% da lotação do recinto desportivo” ou “o número provável de adeptos da equipa visitante perfaça 20% da lotação do recinto desportivo”, algo que acontece quase sempre que um clube grande visita um clube de um escalão inferior.

O artigo 11.º do mesmo regulamento estabelece que nos jogos de risco elevado são necessários recintos que, entre outras coisas, “sejam dotados: de lugares sentados, fixos ao chão, individuais e numerados, equipados com assentos de modelo oficialmente aprovado; de lugares apropriados para pessoas com deficiência e/ou incapacidades nomeadamente para pessoas com mobilidade condicionada; de acessos especiais para pessoas com deficiência e/ou incapacidade; de um sistema de videovigilância, em perfeitas condições de funcionamento, que permita o controlo visual de todo o recinto desportivo e respetivo anel ou perímetro de segurança, dotado de câmaras fixas ou móveis com gravação de imagem e som e impressão de fotogramas” e, além disso, determina que o clube que organiza o jogo deve “proceder à instalação de setores devidamente identificados como zonas tampão que permitam separar fisicamente os espetadores e assegurar uma rápida e eficaz evacuação do recinto desportivo, mesmo que tal implique a restrição de venda de bilhetes”; “proceder à separação física dos adeptos, reservando-lhes zonas distintas”; “não permitir o acesso, nas áreas reservadas a grupos organizados de adeptos, a indivíduos que não sejam portadores de bilhete de onde conste o nome do seu titular”; e “controlar a venda de títulos ingresso, através do recurso a meios mecânicos, eletrónicos ou eletromecânicos, a fim de assegurar o fluxo de entrada dos espetadores, impedir a reutilização do título de ingresso e permitir a deteção de títulos de ingresso falsos.”

Os requisitos são, por isso, exigentes, excluindo muitos dos estádios do nosso país.

Trocas de estádio dão mais dinheiro aos clubes… e à FPF

As condições para poder receber um jogo de risco elevado são exigentes, levando a que alguns clubes não os consigam cumprir. E não é claro que todos os clubes tenham vontade de os cumprir. É que essas mudanças permitem ao clube utilizar um estádio maior e, assim, aumentar as receitas a que tem direito. Como o regulamento só prevê trocas de estádio em caso de impossibilidade de cumprir todos os requisitos, estas exigências todas vêm mesmo a calhar para quem pretenda alterar o recinto de jogo.

O Regulamento da Taça de Portugal determina que cada um dos clubes tem direito a 32,5% da receita líquida do jogo, que resulta da “venda de bilhetes deduzido do valor referente a IVA, acrescido do valor atribuído pela transmissão televisiva e publicidade estática”, menos as despesas com a organização do jogo, como na produção de bilhetes, policiamento e deslocação das equipas. Esses 32,5% da receita do jogo constituem um forte incentivo para que os clubes mais pequenos queiram utilizar um estádio maior.

Assim, é natural que muitos clubes “pequenos” continuem a abdicar da vantagem de jogar no seu estádio para conseguir uma receita maior. Para a Federação, estas mudanças também têm um lado positivo. É que a FPF tem direito a 25% da receita líquida dos jogos.