Portugal
"Leva-se tanto tempo na fase de construção e no final não se construiu nada"
2020-06-16 22:45:00
Manuel Cajuda explica comentários polémicos após empate do Benfica com Tondela

O treinador Manuel Cajuda, que deixou o Leixões após a II Liga ser terminada antecipadamente, clarificou algumas declarações que levaram polémica por terem sido proferidas após o empate do Benfica com o Tondela.

À data, o técnico referiu a existência de "subprincípios e princípios a mais e futebol (golo) a menos", passando uma imagem de "iogurtes a mais e medronho a menos".

Esta noite, em entrevista ao Bola na Rede, Cajuda realçou que não estava a criticar diretamente o Benfica de Bruno Lage, como muitos consideraram na altura, mas sim a denunciar um problema crescente no futebol português.

"O que eu cada vez entendo menos, sendo o objetivo do jogo a mesma coisa desde que o futebol se iniciou, o golo, é como se leva tanto tempo numa primeira ou segunda fase de construção, chamem-lhe o que quiserem, e no final dos 90 minutos não se tenha construído absolutamente nada", afirmou.

Realçando que "há alguns jogos sem oportunidades de golo", Manuel Cajuda insistiu que se aposta cada vez mais na "construção" e menos... em fazer golos.

"Que raio de futebol é este agora em que se anda 60 minutos a fazer circular a bola e não se ataca a profundidade, não se explora os espaços livres atrás da linha defensiva? Faz-se a bola circular, os jogadores ficam no mesmo sítio, chega-se ao final do jogo e o que é que se construiu? Absolutamente nada", considerou.

Para que não o acusem de ser "saudosista", o treinador com "564 jogos na I Divisão, quatro subidas de divisão e duas finais da Taça" recuperou dois exemplos recentes.

"Talvez há três ou quatro anos, via-se o Barcelona a trocar a bola, com os jogadores em movimento, a correr o risco e obrigando os adversários a cometerem erros. Agora passou-se para o atual Liverpool. Eles ali não se preocupam com 'passes de construção', cada vez mais provocam o erro do adversário em vez de esperar por ele", explicou.

Considerações de um Manuel Cajuda que, "há 20 ou 15 anos", cometeu erros semelhantes, embora na altura não tivesse "a informação que há hoje".

"Na altura a moda era o trabalho físico e esquecíamos um pouco as outras interdisciplinas que sustentam uma forma de jogar. Era só correr, era a realidade da altura. Agora, toda a gente diz que o futebol é só tática. Estamos a esquecer que o futebol também é físico, que é preciso correr e saltar mais, é preciso jogar mais depressa, não perder tanto tempo na zona de construção", afirmou.

E acrescentou um problema adicional: "Se estivermos 30 segundos numa fase de construção isso permite que as organizações defensivas, cada vez mais melhoradas, se acentuem no outro lado".

"Juntando a isto as patetices de todos falarem, de todos perceberem de futebol, se continuarmos a fazer a mesma coisa o futebol português não vai melhorar. Quando digo que o futebol é complexo e imprevisível posso dar o exemplo do jogo do Barcelona esta semana, que era à porta fechada e houve uma invasão de campo", finalizou Manuel Cajuda.