Portugal
José Gomes é pouco dado a brincadeiras, mas teve dedo no melhor Gil Vicente
2018-06-14 16:50:00
O novo treinador do Rio Ave nas palavras de quem o conhece bem

Manuel Vilarinho precisava de um preparador físico para compor a equipa técnica do Benfica em 2002 e lembrou-se de José Gomes. Mas antes falou com Carlitos. "É verdade. O presidente chamou-me e pediu-me informações sobre ele. Como é óbvio dei-lhe as melhores indicações, mas porque era verdade", revelou, ao Bancada, o atacante que conheceu o novo treinador do Rio Ave em Barcelos na melhor época de sempre do Gil Vicente.

Na altura, José Gomes trabalhava como adjunto de Álvaro Magalhães e Carlitos recorda um jovem treinador que servia de "barómetro" e que compensa o estilo mais agressivo que tinha o treinador principal: "O Zé Gomes sabia colocar as coisas nos seus lugares. Isto não quer dizer que o Álvaro não soubesse, mas o Álvaro tinha o coração muito perto da boca e não tinha problemas em ralhar a sério com os jogadores. Depois vinha o Zé, mais calmo".

Em 1999/00, o Gil Vicente terminou o campeonato em quinto lugar, conseguindo a melhor classificação de sempre para o clube de Barcelos e Carlitos não tem pejo em afirmar que 50 por cento do mérito do sucesso daquela equipa técnica era de José Gomes. "Era um adjunto muito ativo. Era praticamente um treinador, muito inteligente", explicou o atacante havia regressado a Barcelos depois de uma experiência no Real Madrid.

Ora, ficámos esclarecidos quanto ao papel de José Gomes como treinador adjunto, mas quisemos perceber como se comportou o novo treinador do Rio Ave quando teve de ser ele o principal, o homem a ter a última palavra. Falámos com Jorge Gonçalves, o atacante que se cruzou com José Gomes no Leixões, em 2004/04, uma época que se previa complicada a todos os níveis para o conjunto de Matosinhos.

"Estávamos na Segunda Liga e o clube estava a passar por uma reformulação, e sentia muitas dificuldades financeiras. Nesse ano o plantel era constituído por uma mescla de jogadores muito novos e inexperientes com outros mais experientes", começou por contextualizar Jorge Gonçalves que realizou 31 jogos nessa temporada. "Para dizer a verdade, as expectativas eram baixas, quer dizer, há sempre ambição, mas há que ser realista", esclareceu.

A verdade é que as coisas correram às mil maravilhas para o Leixões. O sexto lugar conseguido - naquela que era a segunda experiência de José Gomes como o homem do leme - foi visto como um grande feito. "Fizemos uma época espetacular", disse Jorge Gonçalves. "Ou seja, fizemos uma época muito acima do esperado tendo em conta a situação da equipa", sublinhou o atacante que lembrou ainda uma das pré-épocas mais puxadas da sua carreira. Mas com uma coisa boa: a bola.

"Lembro-me que terá sido uma das pré-épocas mais puxadas da minha carreira, mas foi sempre com bola. Já era um treinador muito dinâmico, muito moderno", referiu Gonçalves que afirmou ainda que terá sido a exigência de José Gomes no ínicio da temporada que catapultou a equipa para uma boa temporada: "Foi sem dúvida muito responsabilidade do mister José Gomes e à preparação física que nos deu, muito também devido à sua formação. Era sempre tudo com bola, mas era uma intensidade muito elevada", reforçou.

Em Vila do Conde, José Gomes vai encontrar uma equipa que se habituou a jogar bem. Para Carlitos, as comparações vão ser inevitáveis, mas realça a capacidade mental do novo treinador do Rio Ave: "a pressão é normal, e é normal que as pessoas acabem por fazer comparações, ‘ah o ano passado jogávamos assim e tal’, mas ele é uma pessoa extremamente inteligente e saberá, sem dúvida, lidar com essas questões", disse Carlitos, que nos avisou ter uma relação de amizade com José Gomes: "Eu sou suspeito para falar sobre ele. Somos amigos."

Jorge Gonçalves reforça essa ideia: José Gomes não terá nenhum problemas em encaixar na equipa vila-condense e explicou que o técnico também gosta do bom futebol, com uma nuance que o distingue de Miguel Cardoso. "É um treinador que gosta de jogar bem, na linha do que tem feito o Rio Ave, mas é um pouco mais vertical. Não terá a posse de bola só por posse, vai ser um bocado mais objetivo, mas sem esticões. Acredito que vá jogar um bom futebol, mas talvez um pouco mais rápido", explicou o jogador que passou por clubes como Vitória de Guimarães, Feirense, Vitória de Setúbal, entre outros.

Sobre a personalidade de José Gomes, Jorge Gonçalves contou ao Bancada que o treinador é pouco dado a brincadeiras, mas que percebe bem os momentos de descontração do grupo: "Não era muito brincalhão, não. É um treinador que gosta de manter a sua distância, mas sabia perfeitamente como estar. Não era brincalhão, mas sabia os momentos em que podia aproximar-se mais dos jogadores, nos momentos mortos nos estágios, fazia uma piada ou outra. Agora quando era para trabalhar aí não deixava margem para que fosse de outra maneira", revelou.

José Gomes regressa assim a Portugal, mais tarde do que Carlitos pensou: "Ele esteve para regressar há coisa de ano, ano e meio, mas depois acabou por não acontecer", revelou. Aos 47 anos, José Gomes conta com trabalhos em vários clubes: em Portugal esteve à frente de Leixões, UD Leiria, Moreirense, entre outros. No estrangeiro representou o Videoton, da Hungria, o Al Taawon, da Arábia Saudita e o Baniyas, dos Emirados Árabes Unidos.