Portugal
"Escolhem treinadores pelo perfil. Eu, felizmente, tiro fotografias de frente"
2020-05-21 12:20:00
"Todos querem ser Ronaldos. Não se é Ronaldo só porque se tem ambição", revela em entrevista ao Bancada

Longe vai o tempo em que o futebol não era analisado 'frame' a 'frame', com horas e horas de debate, de repetições infindáveis. Longe vai o tempo em que os adeptos festejavam golos, dribles e nada lhes diziam as injeções de capitais, as vendas milionárias ou as contas dos clubes.

O futebol mudou e com ele o léxico de palavras específicas também. Passou-se a falar em bloco baixo, primeira zona de pressão e bascular. No fundo, o futebol passou a integrar muitas e variadas áreas do saber. Ou, talvez, muitas delas sempre tenham feito parte da bola só que com outras designações.

Certo é que, por hoje, o futebol é uma indústria cada vez mais virada para o merchandising e para o lucro. O desporto que apaixona milhões aparece diferente aos olhos dos adeptos, mas há figuras que o conhecem como poucos e fazem do passado uma verdadeira coleção de experiências úteis quer para o presente quer para o futuro.

Manuel Cajuda não precisa de grande apresentações. O povo do futebol conhece-o e a arte do treino corre-lhe nas veias e no pensamento há décadas.

Num discurso certeiro, Cajuda contou ao Bancada como olha agora para a 'festa que o povo gosta', neste tempo em que um vírus mandou tudo para casa e deixou o futebol à espera de um 'prolongamento'.

Numa altura de reflexões e considerações, o técnico começa por explicar que, aos 68 anos, ainda tem muito para fazer no futebol.

"Ainda tenho muita coisa para fazer. Sou capaz de fazer coisas novas mas não mando. Não mando no mundo e nos pensamentos das pessoas. Hoje, escolhem treinadores pelo perfil. Eu, felizmente, tiro fotografias de frente. Perfil não tenho. Tenho competência justificada em resultados e experiência na obtenção de resultados", atirou Cajuda.

O técnico, que prefere não dizer que se sente melhor agora do que há dez anos atrás porque isso podia "cheirar a vaidade pessoal", traça um pensamento próprio na forma como lê o mundo do futebol nestes dias onde a palavra ambição serve para justificar quase tudo.

Ao longo dos anos, muitos já foram os treinadores que viu chegar a 'desaparecer' mas também os jogadores que lhe passaram pelas mãos e que tiveram sucesso, enquanto outros não. No fundo, é a lei da vida em toda e qualquer profissão.

Cajuda olha por isso com particular atenção para o aparecimento de jovens, seja na arte da bola ou do treino, atualmente e para o horizonte que traçam mal chegam a um patamar de visibilidade.

No que toca aos aspirantes a futebolistas, o técnico tem uma ideia muito própria, como deu conta nesta entrevista ao Bancada, onde também falou sobre os temas mais recentes do futebol português onde as críticas chegaram primeiro que a própria competição.

"Acho que demasiada ambição deixa de ser ambição e passa a ser alguma estupidez. Neste mundo moderno, pensou-se que ambição era uma condição para ser um grande jogador de futebol. Vamos ver como o conseguem. Pensou-se que a ambição era a palavra-chave para ser um treinador. Mas também não. Noventa por cento dos meus amigos são ambiciosos e não são treinadores. Uns são gestores, outros são trolhas, padeiros. A ambição não se mede por profissão".

O técnico dá um exemplo em jeito de suposição relacionada com política.

"Imagine que gostaria de ser presidente dos EUA. Isto é estupidez, não é ambição. Ou que eu queria ser Presidente da República, em Portugal. A ambição tem limites, patamares e parâmetros e vai-se alcançando aos poucos. Quando vejo um jogador que ao fim de um jogo no nosso campeonato já quer ir para o Real Madrid ou para o Manchester eu pergunto se não seria já bom ficar pelo menos um ano ou dois num dos grandes... e depois, sim, darem o salto. Todos querem ser Ronaldos. Não se é Ronaldo só porque se tem ambição."

Ciente de que "é duro dizer isto" e "não se adapta a toda a gente", Cajuda recorda que no tempo em que começou no futebol se utilizavam "a ignorância com inteligência".

"Hoje, na maioria dos casos, devemos utilizar a inteligência de uma forma estúpida". Palavra de um 'senador' do futebol nacional.