Portugal
"Benfica em posição privilegiada". Impacto do coronavírus para ricos e pobres
2020-03-25 11:20:00
Professor universitário de Economia diz que próxima janela de transferências está "irredutivelmente comprometida"

Especialista em assuntos financeiros e Economia do Desporto, Paulo Reis Mourão, professor universitário, traça ao Bancada o impacto que o novo coronavírus poderá ter no mercado de transferências, antevê o que poderá suceder com as verbas das transmissões televisivas e tenta antecipar a realidade que a tesouraria dos emblemas portugueses terá de enfrentar nos próximos tempos.

Olhando para os contratos televisivos, Reis Mourão destaca que o Benfica, que transmite os seus jogos em casa através da 'BTV', poderá estar numa posição menos pressionada em relação aos outros.

"O Benfica – dada a sua autonomia financeira – está sempre numa posição privilegiada face aos clubes não-grandes em Portugal. Obviamente que quanto mais frágil a situação de liquidez de um clube (geralmente correlacionada com a posição modesta na tabela) pior a respiração nesta crise", analisa o professor universitário.

Nesta entrevista ao Bancada, o especialista em assuntos financeiros nota também que a próxima janela de transferências será muito especial e particular em relação a outras, quer ao nível dos preços que venham a ser praticados, por um lado, quer pelo facto de importantes ativos (jogadores) não estarem a competir e terem visto provas canceladas como o Euro2020 (por tradição espaços onde alguns jogadores se destacam e conseguem uma valorização).

"No geral, crises desta magnitude atacam todos, ainda que a gravidade seja relativa: os ricos vêm congeladas as remunerações/transferências inflacionadas; os clubes em pior situação vivem tensões mais delicadas pois estão mais dependentes dos contratos televisivos e da boa gestão das transferências", considera o professor univesitário do departamento de economia e gestão da Universidade do Minho.

O desafio financeiro que espera os clubes é, por isso, de uma dimensão especial até porque "o cenário é deveras instável ainda e a próxima janela de transferências – até pela ameaça de adiamento da conclusão das provas profissionais – está irredutivelmente comprometida".

No horizonte, Paulo Reis Mourão vê também que a típica janela de mercado irá sofrer mudanças no que respeita à duração. "Não será entre julho e agosto, como habitualmente. A própria performance dos atletas fica comprometida e o regresso aos trabalhos e a ritmo competitivo comprometerá uma avaliação correta".

Na conversa com o nosso jornal, Reis Mourão nota ainda que os clubes portugueses dificilmente vão conseguir vendas por valores como o Benfica conseguiu com João Félix e o Sporting com Bruno Fernandes, recentemente.

"Se, por um lado, os clubes portugueses, afastados das provas europeias, dificilmente poderiam esperar para esta janela uma transferência que secundasse a do João Félix ou a do Bruno Fernandes, parece-me que a menos que haja um bom esforço de exibição e promoção dos atletas pelas empresas de agenciamento no mercado, as transferências 'out' de portugueses – assim como no geral – verão valores médios bem menores que os das últimas janelas".

O desporto como indústria enfrenta, pois, desafios vários e as empresas que costumam dar suporte financeiro também ficam afetadas pela paragem mundial que o novo coronavírus tem forçado, tal como as organizações das provas como, em Portugal, é o caso da Liga, que está a tentar o alargamento do prazo no pagamento dos seguros.

Numa altura em que já se fala de clubes que podem tentar cortes salariais para enfrentar as dificuldades financeiras, alguns patrocionadores podem tentar a mesma via, deixando a tesouraria dos clubes numa situação ainda mais delicada.

Sobre este aspeto, o professor universitário diz ser necessário analisar cada caso em particular assim que possam aparecer.

"Uma coisa é legitimidade outra o direito. Situações como estas podem invocar diversas alíneas de desastres naturais imprevisíveis e acionar cláusulas de compensação por seguro. Em termos de legitimidade, é algo moral e nestas questões cada caso é um caso."

A economia mundial tem sido fortemente afetada pela paragem do mundo para o isolamento recomendado pelos diferentes estados para enfrentar a crise de saúde mundial com o novo coronavírus, responsável pela Covid-19.