Grande Futebol
Thomas Meunier, o futebolista que queria ser desenhador
2018-06-19 11:00:00
Thomas Meunier, o futebolista que diz sentir-se tão confortável no relvado como numa galeria de arte.

Sochi, Rússia. É junto ao Mar Negro e bem perto da fronteira com a Geórgia que também se joga o Campeonato do Mundo. Em Sochi, Portugal e Espanha deram show e logo à primeira jornada da competição definiram um verdadeiro clássico moderno dos Campeonatos do Mundo. A Bélgica jogou lá, também, dias depois. Não consta que os jogadores belgas tivessem tido a liberdade para visitar um dos vários museus e galerias de arte existentes na cidade, mas, pudessem tê-lo feito e um jogador em concreto não teria falhado a hipótese: Thomas Meunier. O futebolista que queria ser artista e que, no futuro, talvez venha a ser padeiro.

Em Sochi a Bélgica estreou-se no Campeonato do Mundo de forma tranquila, vencendo o Panamá por 3-0, com golos de Mertens e de Lukaku a dobrar. Meunier jogou os noventa minutos do encontro na ala direita e, ao contrário do que vem sendo habitual, não marcou ou assistiu qualquer dos golos apontados pela equipa de Roberto Martínez. A colorir a exibição de Thomas Meunier apenas o cartão amarelo que recebeu logo aos catorze minutos. Meunier tornou-se jogador de futebol em Virton, Luxemburgo, mas o que ele queria mesmo era ter sido artista.

"A persistência da Memória" foi pintado por Salvador Dalí em 1931 e desde 1934 está exposto no MoMA em Nova Iorque. A pintura surrealista, típica de Dalí, ilustra o fundo do telefone de Thomas Meunier. "É o meu favorito. Ilustra a noção de tempo. É uma pintura surrealista e destaca-se do habitual. Talvez seja essa a razão porque me toca tanto", explicou Thomas Meunier em entrevista ao jornal britânico The Guardian. "Dalí é incrível", resumiu, também, ao De Standaard.

Desde cedo que Thomas Meunier revelou uma paixão forte pela arte. Criado numa pequena aldeia nas Ardenas, foi a avó, professora, que fez despertar a paixão pelo desenho e pela pintura em Meunier. "Houve um período em que dizia que queria ser um desenhador de cartoons. Adorava o Bugs Bunny", confidenciou o lateral belga que, durante anos, não se conseguiu governar e ser independente com o dinheiro que ganhava a jogar futebol. Só em 2011, quando por fim chegou ao Club Brugge depois de três temporadas ao serviço do Virton da terceira divisão belga, o conseguiu. O salto, fosse financeiro, fosse futebolístico, foi grande. O resto? É o que se sabe. É hoje um dos melhores laterais direitos do futebol mundial.

Hoje ao serviço do PSV, da Bélgica e a disputar o campeonato do Mundo, custa acreditar que ainda há oito anos Thomas Meunier tivesse de dividir o futebol com um trabalho nos correios e, mais tarde, num armazém de peças de automóveis para sobreviver. Aquele que era um salário conjunto de 1250€ tocou o céu de um momento para o outro. Em 2011 assina pelo Club Brugge e passou a ganhar duzentos mil euros por mês. Cinco anos depois era o lateral direito da Bélgica no Europeu 2016, chegou ao PSG e em 2018 está na Rússia.

"Quando cheguei a França nenhum dos meus colegas me conhecia. Graças ao Europeu talvez um ou dois jogadores soubesse o meu nome. O Thiago Motta, que tinha jogado contra nós pela Itália, com quem troquei de camisola no final do jogo apesar de não ter jogado. Nem isso ele se lembrava", recordou Meunier. Hoje tudo é diferente e nas bancadas dos estádios russos não será difícil encontrar um adepto belga com uma camisola com o seu nome. "Cinco anos depois de estar a jogar pelo Virton tinha Messi, Piqué e Iniesta pela frente, jogadores que apenas conhecia da televisão".

Hoje tudo é diferente e se em tempos quis ser artista, o interesse de Meunier para quando deixar o futebol é, agora, outro. Tornar-se padeiro. Uma coisa é certa: se há coisa que Meunier não entende é a cultura de crítica promovida pelas redes sociais. "É uma catástrofe. O pessimismo, a crítica, o ódio que é expelido das bancadas. Não consigo entendê-lo", confessou ainda o lateral belga que recebeu fortes críticas dos adeptos do PSG depois de ter sido público um like de Meunier numa fotografia de uma tarja de adeptos do Marselha, grande rival do emblema parisiense. Fê-lo por amor à arte, como sempre. "Procuro emoções e sensações quando vejo uma obra de arte", explica.

No futuro talvez encontre Meunier num dos museus da sua cidade se tiver sorte, mas o futuro do ainda lateral direito deverá passar pela restauração. Daqui a uns anos, talvez será padeiro. Por agora, irá limitar-se a gerir o negócio de catering que abriu na cidade natal. Thomas Meunier, o futebolista que queria ser desenhador.